Devo começar dizendo que o livro tem uma leitura fácil. No início cheguei a pensar que era isso que fazia com que, apesar da história ser risível e insólita, eu continuasse a devorar página por página. Já comecei até a ler o segundo, mas não, acho que há algo a mais que nos leva a devorá-lo.
Sim, a escrita do livro é ruim, a autora é fraca, repetitiva e não consegue dar força estrutural aos personagens. Não digo só porque ele é um lindo, bilionário que se apaixonada perdidamente por uma jovem comum, porque eu acho que toda história é possível dentro de um livro, mas o autor tem que ter a capacidade de construir uma trama que nos convença e isso James não consegue.
Dizer que o Mr. Grey é bonito, lindo, estonteante, insaciável, de humor vacilante e controlador, não é construir um personagem. A mocinha então. Sei que a ideia é demonstrar toda a inocência da mesma, mas tenha dó.
Ao mesmo tempo acho que é justamente por estas lacunas que James nos deixa é que o livro ganha força. Nos preenchemos as lacunas de Grey com a nossa própria imaginação, com a nossa própria vontade, e isso o torna mais desejável. Além disso a escrita na primeira pessoa te aproxima de Anastásia. E mais uma coisa conta a favor da mocinha, todas nós em maior ou menor grau temos as nossas inseguranças, dúvidas e em alguns momentos você pensa, bem se eu encontra-se um bilionário, lindo e tão "Grey" eu também me sentiria assim, rola uma empatia.
E com um ou outro detalhe que te prende, apesar da história toda ser inacreditável, Grey e Ana vão nos levando pelos acontecimentos.
Por fim acho que a parte sexual também ajuda a nos prendermos um pouco na história. Primeiro porque é a visão feminina do sexo, ela descreve o sexo sensorial, coisa de cheiros, tatos e isso acaba sendo excitante. E é bem frequente, então quem curtiu tem bastante material.
Achei a parte da relação BDSM pouco explorada, mas o que mais me incomodou no livro foi o uso da questão dominador e submissa pra justificar as piores coisas que um homem pode fazer num relacionamento. Sim este foi o ponto que em o livro é péssimo.
Grey é ciumento, terrivelmente ciumento, tem ciúmes dos amigos e de qualquer homem que se aproxime dela. Ele é autoritário a trata como uma imbecil que precisa ser lembrada de comer, respirar. É sufocante, se irrita porque ela não respondeu um e-mail imediatamente, vai atrás dela mesmo sabendo que ela precisa de um espaço pra pensar, compra presentes que ele sabe que a incomodam.
E este ponto me irrita porque a história acontece de tal forma que todas essas características horríveis são descritas como "qualidades", como se fosse o jeito dele "demonstrar os seus sentimentos". Mas a gente sabe que aqui no mundo real isso é perigoso e extremamente chato.
Mais do que insegurança ela tem um certo medo dele, das suas reações extremadas, do seu ciúme, isso não é um exemplo de relacionamento, isso é um exemplo de relacionamento doentio e pelo menos neste primeiro livro da trilogia isso não fica claro, não é levado em questão.
Leio 50 Tons de Cinza Mais Escuros em busca dessa conscientização da Anastásia, que ela deixe de ser tão deslumbrada, que Grey deixe de ser apenas bilionário-bonito-controlador, que seus traumas venham a tona, ou seja,que a história se explique.
Se não fosse esse lance do relacionamento doentio teria avaliado 50 Tons muito bem, quem disse que livros água com açúcar não são bons?

