quarta-feira, 19 de junho de 2013

Gordículos


Sempre fui uma pessoa de julgamento de entremeios.
E, justamente por isso, dentro de mim se debatem duas opiniões sobre a gordura.
Ninguém tem que ser magro para ser feliz, não são números na balança que demarcarão beleza, aceitação, felicidade, e quiçá, saúde. Sim saúde.
Os propagadores da “gordofobia do bem” irão rugir dizendo que gordura é doença, logo, magreza é saúde.
Não tenho muita paciência com a discussão, é mais um daqueles casos de quem não quer entender, não entende.
Afinal, não é difícil ver que ser um magro sedentário, que se alimenta mal, estressado não te faz mais saudável do que aquele gordinho que se movimenta, tranquilo e que talvez, não a risca, tenha sim uma alimentação saudável, boa genética.
Claro que não estamos falando de obesidade. Principalmente, obesidade mórbida, que ai sim, está na categoria de doenças (nem por isso merece ser tratada com deboches e descaso).

Mas a magreza tem em nossos tempos ares de porta da felicidade. Quem é ou já foi gordinho sonha com o corpo mais leve, com alguns ossinhos saltando aqui e acolá, e com quilos a menos imaginamos que essa pouca massa trará amor, felicidade e saúde.
Sim. Seria tudo isso fruto daquelas malditas propagandas de iorgut, capas da revista Nova e Boa Forma? Sim e mais que estas. Em todo lugar beleza e magreza são vendidos como chaves da felicidade, solução de todos os problemas.
E eu, como eterna gordinha, até desconfiava que não era bem assim. Mas a cada amiga magra que era paquerada, a cada visita as lojas em que roupas para o meu tamanho não eram encontradas meu cérebro se rendia a lógica capitalista de que bonita e magra minha vida seria outra.

Ah quanta besteira. Quantos dias na piscina, quantas roupas mais confortáveis, quantos dramas e lágrimas derramei a toa.
Mas é patente, que não se deve duvidar do poder comercializado da nossa mente, então bravamente fui atrás da felicidade. Emagreci. E mesmo hoje, não tendo chegado a minha “meta”, e sinceramente já ter até desistido dela, mesmo que hoje muitos ainda não me vejam como magra (o lance dos ossinhos saltando não é pra mim) eu entrevejo um pouco da tal felicidade. Estou me amando mais. Estou me gostando mais, me admirando mais no espelho e fora dele.
Afinal, a trancos e barrancos eu consegui.

Hoje sou eu quem rejeita às roupas e não elas a mim. (Em tese. Ainda sou alta demais, e grande demais para usar de tudo, caber em tudo, e muito menos, ficar bem em tudo)
Sinto uma liberdade maior, talvez por saber que fui aceita, do que pela magreza.
Sim, considerando todo o dito eu sou uma vítima de todo uma indústria que vende felicidade a quilo.
Mas acima de tudo sou prova de que felicidade é aquilo a que a gente dá nome, acredita. Me sinto melhor porque coloquei no processo de emagrecimento a força de uma batalha a ser vencida. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Tá no ritmo?


Eu acredito no ritmo da vida.
Acredito, plenamente, que algumas coisas acontecem porque têm que acontecer.
Que a dificuldade de hoje te prepara para os caminhos mais tortuosos de amanhã.
E às vezes me pergunto até que ponto isso é fé na vida ou acomodação?

Quando olho pro caminho que percorri até aqui consigo perceber dois elementos importantes: um fio que parece unir tudo numa simetria perfeita, uma sequência propulsora que me leva ao salto seguinte; e também a minha inércia em lutar por aquilo que parecia não se encaixar na ordem vigente.

Talvez seja meu positivismo se exibindo, mas vejo as dificuldades de hoje como a consolação de amanhã. Os momentos em que a vida me encurralou as melhores saídas apareceram como um prêmio pela minha resistência.
Será que eu teria me esforçado tanto e seguido tão firme sem certa rigidez da vida?
Fiz os amigos certos: aqueles que sempre me incentivaram a pensar maior, a seguir em frente.
Tive a mãe certa e com um pé no realismo que me fez desconfiar muito do elemento sorte.
Tive a companhia de sonhos e oportunidades que vão me movendo.

Mas ao mesmo tempo, seja pelas dificuldades, externas ou pelas internas, com algumas coisas, me convenci que não eram pra mim. Até hoje, bem lá no fundo vejo assim, ainda repito - Eu não sou pra isso, eu não sei lidar com isso.
Deveria ter sido o Amor minha luta contra o estado natural das coisas? Deveria sido mais rebelde e assim ter tido um prêmio maior que é o amor? Começo a achar que as outras coisas podem vir por merecimento na resiliência e o amor dependeria de uma coragem maior, mais sangrenta, menos pacífica. 
Mas sempre sobrevém a pergunta: Não será este o meu destino? 

Estar sozinha é mais fácil. E quando olho para minha natureza percebo que amor, relacionamentos parecem contrários a ela. Antinatural.
Vejo o rumo que minha vida tomou e creio que um relacionamento a teria afetado de uma forma circunstancial não positiva.

Certa vez, alguém muito próximo disse: "Minha personalidade não cabe ter alguém ao lado."
E talvez a minha também não. Vai entender.

Assim, vou cambaleando entre a aceitação e a revolta. Entre o auto-amor e a solidão.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O dia daqueles que não foram


Querido hoje é o dia dos namorados, mas não é nosso dia.
Talvez, assim como em muitos outros, eu fique olhando por aí procurando incessantemente pelo seu carro bordô.
Talvez eu continue achando que em algum momento um quê de romantismo "shakesperiano" irá te abordoar e você correrá até mim com um sorriso nos lábios.
Talvez eu continue reconectando os fios de nossas existências, dessa e das passadas, tentando nos unir em laços infindáveis e espirituais.
Talvez eu continue tendo aquele diálogo em que eu te digo porquê fui tão infantil e você diz o porquê de tanta distância e "desimportância".
Quem sabe no final era excesso de amor, muito de nós na história?
Talvez eu continue achando músicas melosas que têm um quê da gente.
Talvez continue chorando por lembranças nossas que nunca aconteceram.
E mais, por um tempo que não consigo precisar, provavelmente minhas noites serão regadas por lágrimas por este tão sonhado "nós".
Mas hoje é dia dos namorados e não é o nosso dia.
Eu nunca soube se éramos namorados.
E creio, bem lá nas profundezas escuras da minha racionalidade, que nunca seríamos verdadeiramente bons um pro outro.
Não adianta, mas bem antes de gostar da ideia de gostar e sofrer por alguém, quando tudo o que eu via era você e eu, eu soube que não seríamos nós feitos para o outro.
Você muito comedido, muito dado as coisas feitas com perfeição, muito com o quê na linha reta, deixando-me, mais por culpa minha e das minhas expectativas, sempre sem graça e desconfortável.
Eu sempre precisando de uma reafirmação explícita de carinho e devoção eterna, sempre dizendo o contrário do que desejo ou penso, sempre procurando me encaixar nos devaneios alheios desprezando o que há de bom em mim.
Não somos nós como tardes cinzas, bons livros e vinho.
Não somos como manhãs frescas.
Não somos como um Los Hermanos.
Não nos comparamos ao cheiro de pão fresco, de fome saciada, de gargalhada na mesa de bar com amigos, ou com noites de luar estrelada.
Somos pouco um pro outro.
E o amor precisa de quem é muito.
Não foi amor.
Não foi namoro.
Não teve quê, de quê.
Fomos.
Eu continuo sendo.


The Killers - Here With Me