Estou no primeiro capítulo de
Cinquenta Tons de Liberdade e acho que consegui chegar ao ápice da minha
irritação.
Muito antes de ler o tão falado
livro percebi duas opiniões conflitantes. A primeira taxavam Grey de ser um
novo príncipe encantado, com a diferença de que o príncipe encantado no máximo
beijava a princesa e Grey era capaz de provocar orgasmos e experiências
enlouquecedoras em sua escolhida.
E de outro lado, muitos
criticavam o livro por ser raso, não sustentar uma relação BDSM, e por abusar
dos velhos chavões do ricaço que ganha uma garota a deslumbrando com seu
dinheiro e poder.
E acho que acabei pendendo para o
lado negativo dessas opiniões.
Resumindo: acho o livro mal
escrito. Ninguém pode achar que descrever cenas de sexo picante, descrever seu
galã como lindo, bilionário, poderoso, controlador, com olhos cinzas e
sedutores, e com um humor extremamente vacilante, e sua mocinha como uma eterna
patética, colocar toda a sorte de clichê dentro de uma história é escrever um
livro.
A repetição, de acontecimentos,
frases, situações pode até ser ignorada no primeiro livro, afinal ainda estamos
nos acostumando com os personagens e tal, mas no segundo já é insuportável. Há
ciclos na história, olhares, sexo, ciúmes, posse, olhares, sexo, blá, blá, blá.
E no terceiro, fica ainda mais entediante. O ritmo da história cai imensamente.
E seja porque no primeiro, mal ou bem há surpresas, (quem vai imaginar que uma
garota virgem, e mais ainda, completamente inexperiente com sexo vá cogitar entrar
em uma relação BDSM), mas do segundo livro em diante, quando miraculosamente
Grey está completamente apaixonado, (além de irritantemente meloso), fica
difícil se surpreender com a história.
Mas apesar disso tudo, o livro
poderia ser tolerado. No entanto, nem isso essa história maluca consegue.
Desde o início me incomodou
imensamente a situação de submissão como mulher da Anastácia. Como ela nunca
chega a aceitar e assumir plenamente a situação de Submissa isso não é desculpa
para a relação abusiva entre ela e Grey. E não justifica, principalmente, que a
história o descreva, e muita gente concorde, que ele é um novo príncipe
encantado. Afinal, ele é controlador. O tempo todo está ao redor dela, tomando
decisões por ela, como se ela fosse uma acéfala. Só eu acho um absurdo ele
comprar a empresa onde ela acabou de ser contratada por causa de sua
necessidade de “protegê-la”? Sério! As mulheres estão realmente se dispondo a
ficar com caras que as achem tão idiotas e indefesas que não podem sequer dar
um passo sozinhas? Ciumento. Ciumento a ponto de ser sufocante. Presunçoso. E o
pior de tudo, ele é assustador. Ela, que é impressionável além da conta, demonstra
por muito tempo que tem medo das reações do amado. E é justificado, já que
Cristian tem o pior humor do mundo. Ele fica irascível com qualquer detalhe,
qualquer mínimo desagrado. Não são raros os momentos em que Anastácia se
preocupa com o que Sr Grey irá pensar das coisas corriqueiras do mundo como o
convite de um amigo para conversar, algum problema no escritório.
E para justificar cada uma de
suas pequenas monstruosidades temos uma infância problemática, e a dificuldade
de Grey lidar com os próprios sentimentos. Cristian, tem segundo a própria
história a maturidade de um adolescente. Então se seu marido, namorado te
destrata, te subestima, sempre haverá algo que justifique. Eu não gosto e nem
concordo com isso.
No fundo acho que o problema do
Cristian Grey é que ele acha que a Ana, assim como, os bilhões que ele tanto se
gaba de ter, não passam de uma propriedade, talvez por isso ele tenha tanto
prazer em dizer que ela é dele, por isso controlar as roupas que ela veste, com
quem ela fala, quando, como, e até, o que ela come, e quando ela deverá comer,
independente de ter fome ou não. E também é por isso que Grey a marca, no primeiro
capítulo de 50 Tons de Liberdade, apenas para que ela não faça topless. E ao
invés de verdadeiramente se revoltar contra isso nossa mocinha demonstra que é
tão consistente quanto picolé ao sol e alguns segundos depois de uma ira
infantil, pronto lá está ela e sua maldita deusa interior derretidinha por ele.
É patético.
O que me assusta e impressiona é
como mulheres de todo o mundo não percebem isso e endeusam o senhor Grey,
sonham com momentos ao lado de um homem assim.
Mais que uma literatura ruim,
Cinquenta Tons demonstra uma fase ruim da nossa sociedade, principalmente, no
campo afetivo. Não é difícil a gente ver pessoas tratando as outras como
objetos, exigindo obediência, exaltando a violência, a posse e o poder.
Quanto à papagaiada sexual, bem, isso cabe uma análise
a parte.