Eu estou tão cansada que eu queria congelar o tempo. Fazer igual
aqueles desenhos de super herói em que eles congelam o tempo/realidade
e você fica lá transitando enquanto a água da torneira fica num eterno
caí num caí, o olho semi-piscado de alguém, o suspiro entalado, nem
ligo. Ia deitar e dormir até o sono acabar, e quando acabasse ia ficar
na cama até o corpo doer. Ia tomar café até me empazinar e deitar mais
um pouco pra descansar. Arrumar minha estante de livros, tirar a
poeira e folheá-los lembrando dos detalhes esquecidos, piadas,
melhores cenas. Tirar, enfim, as receitas dos papéis soltos e
colocá-las no caderninho próprio delas, quem sabe separar alguma para
o almoço. Arrumar o resto da estante, experimentar aquela sombra
exótica que sempre fico curiosa e com medo de arriscar na correria
pré-balada. Arrumar as bolsas, conferir seus bolsos, chupar as balas
velhas, guardar os cartõezinhos, os comprovantes de compra: “Meu Deus
o carnezinho que terminou em 2010 ainda está aqui!”. Por fim, mexer
nas minhas caixas, redescobrir CDs velhos e dançar músicas velhas,
dançar, suar, cansar e dormir mais um pouco. Acordar, arrumar a
bagunça, jogar fora o que não faz mais o coração palpitar. Fazer meu
almoço, cortar pequenininhas as cebolas, enrolar vagarosamente o
macarrão no garfo, beber algo gelado e gostoso. Isso cansa, quero
dormir de novo. Acordar, ver TV, cansar, arrumar o guarda-roupa. Rir
das roupas que eu adorava e agora me pergunto como pude andar com
isso. Chorar pelas que não cabem mais. Ver TV. Arrumar a casa, cada
cômodo, me deliciar. Limpar, expurgar o desnecessário da casa e de
mim. Olhar para o nada, não só olhar, ver, enxergar, pensar o nada,
até cansar. E talvez, mesmo sem querer eu começasse a questionar
quanto tempo se passou? Impossível saber, o relógio não acusa. Será
muito tempo? Quem sabe. Tempo demais para quem congelou na agonia da
dor, da morte? Tempo demais para a primeira troca oxicarbônica do
serzinho? Tempo demais para quase ser atropelado? Mas não tempo demais
para o primeira troca de olhares apaixonados. Pode se tempo demais
para quem vê vindo em sua direção a certeira bala, mas não tempo
demais para aquele que aperta o gatilho. Um pouco mais de nada, de
silêncio e solidão. Um suspiro fundo de quem se prepara para o golpe e
as comportas da vida são abertas novamente.
Vida que segue.