Eu
sempre tive um grande interesse em interpretação de sonhos. Minha mãe sonha
todos os dias com a minha avó que já faleceu há mais de 20 anos. Tem sonhos
vívidos, coloridos e cheios de tramas. E tornou-se um hábito entre nós comentar
sobre eles no café da manhã. Eu mesma já tive muitos sonhos repetidos e
surpreendentes.
Tive um
sonho estranho em que eu visitava um templo sagrado com minha mãe, meses depois
tive o mesmo sonho com meu avô. Me lembro claramente da sensação de paz, e
encantamento com lugar.
Tradicionalmente
depois de um sonho interessante eu consultava um velho “dicionário dos sonhos”
em busca de uma interpretação, sempre torcendo para que aquilo não significasse
nada de ruim. Sim, é uma supertição boba, eu sei.
Gayle Delaney criou um método
que permite que qualquer pessoa interprete um sonho. Inclusive, permitindo que
nós mesmos interpretemos nossos próprios sonhos. Ótimo, maravilhoso? Não. Não é
tão simples.
O problema do livro começa que
sua escrita é penosa. Só o meu profundo interesse no assunto me levou a
conseguir terminá-lo. Ele parece ter sido escrito para algum trabalho
acadêmico, tem uma escrita quadrada e sem ritmo.
Mas ainda assim, a pior coisa do
livro é a autora. Ela é melhor que Freud, Jung, e qualquer outro psicólogo,
intérprete, qualquer outro que na História da humanidade já tenha ousado
escrever sobre sonhos. E ela faz questão de nos lembrar disso a cada linha que
chama Freud de soberbo, o método de fulano de falho, arrogante. Enfim. Essa
atitude dela tornou a leitura difícil porque eu criei antipatia por Gayle. No
final do livro, inclusive, ela se gaba de que SEU MÉTODO revolucionou o
treinamento de gerentes, administradores, físicos, blá, blá, blá. São longas 20
ou mais páginas apenas com puro marketing
pessoal.
Mas isso é já no finalzinho do livro. Pra começar você enfrentará a história dos sonhos desde eras mais
antigas. E o ruim é que você está doida para saber como faz, e essa enrolação.
Quanto ao método, tenho tentado
aplicar ainda sem grande sucesso. De fato, a argumentação de todo o seu método
de interpretação parte do princípio de que significados “fixos” das imagens dos
sonhos não tem cabimento porque cada uma delas expressa algo que varia de
indivíduo para indivíduo. Se você é dentista, ou morre de medo de ir a um, está
com dor de dentes, sonhar com eles terá um significado diferente.
Delaney ensina o tal método a
conta gotas. Basicamente, você deve prestar atenção às imagens do seu sonho e
tentar entender a metáfora que ela traz. Para ajudar ela cria um método de
entrevista em que o sonhador tem que fingir que o entrevistado veio de outro
planeta, ou seja, mesmo imagens simples e banais devem ser explicadas na sua
totalidade.
Exemplo, ele tinha um Fusca. O
que é um Fusca? Para que eles servem? Pois independentemente do que signifique
um Fusca na nossa realidade, em um sonho ele pode ter um sentido muito mais
amplo, e às vezes até contrário.
Funciona assim:
“Eis o
sonho de Renata, que passou de imagens aparentemente não sexuais para tema
sexual:
‘Eu tirei
o esmalte vermelho das unhas dos dedos dos pés e das mãos, e depois coloquei um
esmalte branco-perolado. Sorrindo, mostrei minhas mãos e pés a meu marido,
esperando satisfação e aprovação.’
Quando
teve esse sonho, Renata e seu marido tinham acabado de voltar a viver juntos,
após um ano de separação. Após duas perguntas, ela compreendeu seu sonho.
Gayle: Eu
venho de outro planeta. Por que mulheres usam esmaltes nas unhas?
Renata: Para
ficar sensuais e atrair o sexo oposto.
Gayle:
Qual a diferença de usar esmalte vermelho e o branco-perolado?
Renata: O
vermelho é uma cor muito sensual e o branco, não. O branco é a cor da pureza e
o vermelho, a da paixão. (...) O sonho me mostra renunciando a minha paixão
para conquistar a aprovação e amor do meu marido.” (P. 167, 168)
Continuarei tentando achar
significado e aplicar as técnicas da autora. Seria interessante entender por que
todos os caras do meu sonho são muito mais bonitos do que na realidade? Por que
eu sonhei que estava fazendo sexo com o Maradona ao invés do Paul Bettany? Ou até, como promete a autora, resolver
problemas, práticos e emocionais, psicológicos com os sonhos.
Enquanto isso, vou lutando para
conseguir me lembrar deles pela manhã. Já é o bastante.

